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 Ariovaldo Izac
  Jornalista

Reminiscências
 

Paulo César, o Caju

Quando a Seleção Brasileira passou às oitavas-de-finais da Copa do Mundo da África do Sul, o ex-jogador Paulo César Caju botou a boca no ‘trambone’: “Tô de saco cheio. Esse não é o futebol brasileiro, com jogadores brucutus”.

Careca e barbudo, Caju interpretou o pensamento de milhares de brasileiros avessos ao futebol pragmático que o técnico Dunga havia programado para o seu selecionado. E falou com a autoridade de um tricampeão mundial na Copa do Mundo do México, em 1970, e um dos principais ídolos entre os anos 60 a 80, com passagens por Botafogo (RJ), Flamengo, Paris Saint-Germain (França), Fluminense, Corinthians e Grêmio (RS).

Caju é mais um exemplo de menino bom de bola dos morros do Rio de Janeiro que dá certo no futebol. E confessou seu instinto perverso e racista na adolescência, quando, nas brincadeiras de rua, chutava a bola de propósito para quebrar vidros de casas de vizinhos brancos.

A mãe, uma empregada doméstica, bem que o aconselhava a fazer uso de ferro quente para alisar os cabelos, mas ele preferiu acompanhar o modismo da época de cabelo black power, tingindo-o de amarelo, um disparate que resultou no apelo de Caju.

No auge da fama foi um boêmio incorrigível na alta roda do Rio de Janeiro. Usava perfumes importados e adorava jóias. Revistas de fofocas o flagravam em companhia de loiras belíssimas.

Quando deixou o futebol foi um consumidor de drogas durante 15 anos. Depois, recuperado do vício, passou a dar palestras a jovens, instruindo-os sobre os malefícios da maconha, crack e cocaína.

Uma das histórias marcantes na carreira do jogador foi no dia 16 de abril de 1970, no Estádio do Morumbi. O então técnico da Seleção Brasileira, Mário Jorge Lobo Zagallo, ousou escalá-lo no lugar de Pelé, no jogo amistoso contra a Bulgária, o penúltimo antes do embarque para o México, visando a Copa do Mundo.

Pelé atravessava o pior momento na carreira profissional, e enfrentava a dureza da reserva pela primeira vez, um castigo inaceitável para a torcida. E quando Caju apontou no gramado foi vaiado, não se abateu, mas o time só empatou sem gols. Na sequência, a equipe venceu a Áustria por 1 a 0, antes do embarque ao México.

A projeção de Caju foi na função de falso ponteiro-esquerdo nas categorias de base do Botafogo-RJ. Conduzia a bola grudada aos pés, e a colocava onde bem entendia. O chute não era forte, porém com direção. Por isso fez muitos gols em cobranças de falta. Embora destro, sabia trabalhar bem a bola com a perna esquerda. Às vezes fazia jogadas de fundo, com precisos cruzamentos.

Em 1967 já participava do grupo de renovação da Seleção Brasileira. Na Copa de 70, por exemplo, fez a torcida brasileira esquecer o meia Gérson nas partidas contra Inglaterra e Romênia, com atuações marcantes. Até 1977 teve cadeira cativa na Seleção Brasileira.

Ariovaldo Izac
ariovaldo-izac@ig.com.br  

(Ariovaldo Izac escreve esta coluna às Segundas)      

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