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 Ariovaldo Izac
  Jornalista

Reminiscências
 

Margarida e seus trejeitos

Em mil novecentos e bolinha alguém disse que futebol é feito para homem, e a partir daí a “zagueirada” se considerou no direito de dar botinadas continuamente e ainda repetir esse preconceituoso bordão. Com a introdução do cartão amarelo, a partir da Copa do Mundo de 1970, jogadores violentos começaram a perder espaço no futebol devido ao rigor da arbitragem. Assim, o condenável conceito de bater da medalhinha pra cima caducou.

Certamente essa propagação de que “futebol é feito para homem” retardou a consolidação do futebol feminino no Brasil. Hoje, com caneleiras protetoras, elas podem dividir bola sem o temível receio de marcas nas pernas, outrora provocadas por travas de chuteiras adversárias. Assim, mantém a feminilidade e elegância.

Talvez essa conceituação ditatorial de que “futebol é feito para homem” resulta em comportamento discretíssimo de homossexuais que compartilham da modalidade. Afinal, você conhece algum jogador de futebol profissional que tenha afirmado publicamente a sua homossexualidade? Que existe, existe. Geralmente esses casos são camuflados por motivos óbvios. É difícil surgiu um corajoso como o britânico Justian Fashanu, considerado o primeiro jogador de futebol no profissionalismo a assumir publicamente a sua homossexualidade. Isso ocorreu na Inglaterra em 1990, mas a carreira só se prolongou por mais oito anos. Ele foi denunciado de abuso sexual a um menor de idade e teve de se afastar do meio.

No amadorismo o tabu já foi quebrado em 2007 com a realização da 1ª Copa do Mundo de Futebol Gays e Lésbicas disputada em Buenos Aires, na Argentina, com participação de 14 países, sem a inclusão do Brasil.

Técnicos gays também estão espalhados por aí. O quebra-cabeça é identificá-los, porque não são assumidos.

A rigor, gay assumido, mesmo, foi o árbitro carioca Jorge Emiliano dos Santos, o Margarida, que completaria 56 anos de idade neste 3 de março, se fosse vivo. Paciente aidético, morreu aos 41 anos de idade, no dia 21 de janeiro de 1995.

Margarida integrou o quadro de árbitros da Federação de Futebol do Rio de Janeiro, e estreou apitando no Estádio da Gávea, na vitória do Flamengo sobre o Volta Redonda por 3 a 1 em 1988.

Tecnicamente era até considerado um bom árbitro. O problema era o marketing pessoal. O desmedido desejo de aparecer mais que os artistas do evento, os jogadores, era notório com seus trejeitos e a forma como desmunhecava na aplicação de cartões amarelos. Por isso ingressou no bloco dos folclóricos.

Quando apitava jogos do ex-atacante e hoje treinador Renato Gaúcho, pelo Campeonato Carioca, sempre arrumava um jeito de mostrar-lhe cartão amarelo. E fazia de uma forma carinhosa.

Hoje, podem ser identificados imitadores de Margarida espalhados pelo Brasil, um deles o catarinense Clésio Moreira dos Santos, de Palhaça, região metropolitana de Florianópolis. Esse ex-árbitro fez questão de usar uniforme cor-de-rosa e trejeitos acrobáticos. Como diferencial, é casado e pai três vezes.

Ariovaldo Izac
ariovaldo-izac@ig.com.br        

(Ariovaldo Izac escreve esta coluna às Segundas)      

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