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 Ariovaldo Izac
  Jornalista

Reminiscências
 

Excursões e os dólares

Pelé, o atleta do século, sempre arrastou multidões aos estádios de todo planeta. Nas excursões do Santos ao exterior, entre os anos 50 e 70, a cota do clube era uma com a presença dele e outra fracionada sem ele. Em 1969, Pelé provocou trégua em uma guerra entre as facções civis Kinshara e Brazzavilei, no Congo Belga, na África. Todos queriam vê-lo em campo, mas o cessar-fogo foi negociado com a finalidade de não colocar em risco a delegação santista em dois jogos agendados pelo empresário francês Elias Zacour.

Naquele período, os grandes clubes brasileiros excursionavam a todos os continentes. Os cartolas justificavam o vaivém ao exterior, mesmo com campeonatos regionais em andamento, pela necessidade de buscar dólares para cobrir rombos nas finanças dos clubes ou servir de investimento no patrimônio.

Até a década de 90, com menos intensidade, os clubes ainda excursionavam. Todos os anos um deles participava do torneio quadrangular Ramon de Carranza, em Cardiz, na Espanha. O Vasco ganhou três vezes a competição, seguido por Flamengo duas, Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Atlético Mineiro uma vez, em 1990, na vitória por 1 a 0 sobre o Santos.

A estreita ligação de dirigentes vascaínos com comandantes de clubes portugueses implicou em seguida programações de amistosos naquele país, mas foi o Flamengo, em 1951, quem praticamente abriu o mercado de exibições de clubes brasileiros na Europa. É que o time voltou invicto após dez partidas. Dez anos depois, coube ao Fluminense também realizar uma bem sucedida excursão ao velho mundo: nove vitórias e uma derrota.

O Cruzeiro foi outro clube bem relacionado com os portugueses. Curiosamente, o primeiro gol que Ronaldo “Fenômeno” marcou na equipe celeste foi na “terrinha”, contra o Belenense, na vitória por 2 a 0, em 1993, quando ele ainda completaria 17 anos de idade.

Desde a década de 60 o Cruzeiro tem um bom nome no exterior, e na ocasião os adversários exigiam a presença do atacante Tostão. Por isso, era comum a opção de um time misto com a inclusão do principal astro nas excursões, como em 1967 na América do Norte.

A exemplo do Santos com Pelé, o Botafogo (RJ) também tinha cota diferenciada quando levava o ponteiro-direito Mané Garrincha em sua agenda no exterior. Em 1963, em nove partidas na América do Sul, Garrincha jogou sete com o joelho inchado.

Clubes de menor expressão como Bangu (RJ) e Ferroviária (SP) também viajavam para fora do país. A mais longa excursão foi de 120 dias, em 1973, do ABC de Natal, que entrou no livro dos recordes (Guinness Book). Seu último jogo, em Uganda (AFR), rendeu-lhe a cota de U$ 3 mil, três vezes mais que o negociado nas partidas anteriores.

Nem todos os clubes eram bem sucedidos nas viagens. Havia empresários os abandonavam e os deixavam sem agenda e dinheiro para pagamento de despesas. Aí, o dirigente com jogo de cintura conseguia se virar.

Ariovaldo Izac
ariovaldo-izac@ig.com.br        

(Ariovaldo Izac escreve esta coluna às Segundas)      

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