Ladeira, descobridor de talentos
Pela terceira vez o técnico Adaílton Ladeira conquistou título da Copa São Paulo de Futebol Júnior, novamente comandando o Corinthians, na vitória por 1 a 0 sobre o Atlético (PR) neste 25 de janeiro. Por isso, vamos reproduzir de novo uma coluna escrita pelo jornalista Ariovaldo Izac sobre este profissional.
Lapidar garotos no futebol é uma questão vocacional. E o técnico Adaílton Ladeira tem feito esse trabalho há mais de 30 anos, com histórico quantitativo de atletas revelados. Os mais relevantes foram Careca, João Paulo e Júlio César, no Guarani; Kleber – lateral-esquerdo - e Gil no Corinthians.
Pode-se dizer que Ladeira nasceu para treinar garotos de categorias de base. Nas poucas vezes que comandou equipes profissionais, como o XV de Jaú - interior de São Paulo - os resultados foram só razoáveis. Nivelou-se a dezenas de treinadores que não saiam do anonimato.
Esse Ladeira com hábito de falar alto é um comandante com ascendência sobre o grupo, conhece o “riscado” e tinha tudo para dar certo em time profissional, mas não deu. O acaso do futebol reservou-lhe unicamente a missão de trabalhar com juniores.
Ladeira foi um ponta-de-lança de qualidade técnica indiscutível até a década de 70. Na época, um dos requisitos para vestir a camisa 8 era habilidade e boa visão para colocar o centroavante na “cara” do gol. No seu tempo, os clubes optavam por dois atacantes enfiados, abastecidos por lançamentos de meia de armação e cruzamentos de ponteiros.
Paradoxalmente essa função está praticamente extinta no futebol brasileiro, salvo raras exceções. Uma delas foi Edmundo, e nos bons tempos de Palmeiras, patrocinado pela Parmalat. Ladeira protegia bem a bola e era atrevido para tentar jogadas. Quando “limpava” o lance, na maioria das vezes preferia acionar o centroavante para complemento de jogada a arriscar finalizações. Trocado em miúdos, não era fominha. Evidente que tinha discernimento para arrematar de média distância quando o centroavante estava bem marcado.
Naquele tempo, os pontas-de-lança não tinham hábito de buscar a bola. Posicionavam-se perto do centroavante e também eram cabeceadores. E Ladeira, apesar da estatura mediana, tinha bom aproveitamento pelo alto, principalmente antecipando-se ao zagueiro.
Pena que ficou escondido no América de Rio Preto (SP) no início da década de 60, num time que tinha como destaques o zagueiro Nelson Coruja (ex-Palmeiras), lateral-esquerdo Ambrósio e o ponteiro-direito J. Alves. Ele teve passagem discreta pelo São Paulo e explodiu no Bangu (RJ), no inesquecível time campeão carioca de 1966, formado por Ubirajara; Fidélis, Mário Tito, Luís Alberto e Ari Clemente; Jaime e Cabralzinho; Paulo Borges, Ladeira, Ocimar e Aladim.
Naquela final com o Flamengo, o Bangu goleou por 3 a 0, o adversário apelou, e o jogo não chegou ao final. Na “brigaida” dos boleiros, Ladeira levou a pior. Levou uma rasteira de Almir Pernambuquinho e, no chão, o malvado flamenguista ainda deixou as travas da chuteira em suas costas, resultando em fratura de três costelas.
Um dia depois da partida, com Ladeira convalescendo em hospital do Rio de Janeiro, eis que Almir apareceu no horário de visita e, arrependido, pediu desculpas. Almir foi tão sincero que chorou. Depois disso, ambos se tornaram amigos.
Ariovaldo Izac
ariovaldo-izac@ig.com.br
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