Marinho Chagas, o irreverente
Nos tempos em que laterais tinham como principal atribuição
marcar ponteiros, nas décadas de 60 e 70, o potiguar
Marinho Chagas era um insubordinado assumido. Era o típico
lateral-esquerdo que pouco se importava com o ponteiro-direito
adversário e se mandava constantemente ao ataque.
A rigor, essa mania de deixar o setor vulnerável gerou
briga feia com o então goleiro Émerson Leão,
após a derrota da Seleção Brasileira
para a Polônia por 1 a 0, na disputa pelo terceiro lugar
da Copa do Mundo de 1974, na Alemanha. Há quem diga
que ambos quase saíram no tapa naquela ocasião.
Marinho Chagas já se lançava ao ataque desde
1969, quando se profissionalizou no Riachuelo, equipe do Rio
Grande do Norte. Essa ousadia despertou interesse inicialmente
do Náutico (PE) e posteriormente do Botafogo-RJ, onde
ganhou o apelido de 'Bruxa'.
Esse potiguar era irreverente dentro e fora de campo. No gramado,
é um destro que deu certo pelo lado esquerdo do campo.
Ganhava o ataque com passadas largas, tinha habilidade, fechada
bem por dentro, chutava forte e fazia gols. Na Seleção
Brasileira, por exemplo, o histórico é de quatro
gols em 38 jogos. No Fluminense, o quarto clube de sua carreira,
a proporção é mais elevada: 39 gols em
93 jogos.
O lateral jogou no Fluminense ao lado do atacante argentino
Doval, meia Rivelino e zagueiro Edinho. Foi para as 'Laranjeiras'
incluído numa troca com o lateral Rodrigues Neto, ponteiro-direito
Gil e meia Paulo César Caju.
Marinho exibia uma vasta cabeleira loira, usava pulseiras,
vestia roupas coloridas e era muito extrovertido. Logo, tinha
mesmo de estranhar a convivência com americanos, em
pouco mais de 12 meses que esteve no Cosmos, clube dos Estados
Unidos. Aí, na primeira chance de voltar ao Brasil,
não hesitou. Topou a proposta do São Paulo,
mesmo informado da resistência do técnico Carlos
Alberto Silva em aceitá-lo no elenco, em 1981.
Evidente que Marinho não decepcionou os são-paulinos,
mas já não tinha o vigor físico para
fazer o vaivém de outros tempos. E, na final do Campeonato
Brasileiro daquela temporada, mandou recado provocativo ao
então árbitro carioca José Roberto Wright,
cobrando arbitragem honesta no jogo contra o Grêmio,
após recordar que os clubes do Rio de Janeiro haviam
sido eliminados da competição. E quando lhe
disseram que Wright era faixa preta de judô, Marinho
ironizou: "Depois que inventaram aquela máquina
que cospe chumbo, não existe mais homem brigão
e valente nesse mundo".
Posteriormente, o lateral comprou o passe e ainda perambulou
por Bangu, Fortaleza e América-RN, onde parou de jogar
em 1988. Ele ainda tentou ser treinador, mas logo percebeu
que não tinha aptidão para o cargo.
A cúpula do diretório municipal do PL de Natal
(RN) conseguiu persuadi-lo a se lançar candidato a
vereador, mas o potiguar não o elegeu.
Assim, Marinho projetou uma empresa de aluguel de buggys e
se envolveu numa tremenda confusão ao ser flagrado
em blitz policial com placas falsas no veículo. Ficou
preso um dia, se explicou, e continua tocando a vida nesse
ramo de veículos, além de rendimentos de imóveis
e de uma pousada na Praia da Rendinha, em Natal. O ex-atleta
também mantém duas escolinhas de futebol para
crianças carentes.
Ariovaldo Izac
aizac@camisa12.com.br |