O fino Djalma Dias
Jovens torcedores palmeirenses que já viram zagueiros
de seu time dando chutões para a arquibancada ou usando
o vigor físico para "atropelar" atacantes
adversários provavelmente desconhecem a história
de Djalma Dias, zagueiro de técnica refinada e, naturalmente,
avesso aos "bicões". Djalma desfilou seu
talento pelo Parque Antártica na década de 60,
formando dupla, inicialmente, com Valdemar Carabina. Ele foi
um dos destaques do inesquecível time decantado como
"academia alviverde".
Fosse vivo, o carioca Djalma Dias teria hoje 61 anos. A bela
carreira teve
início no América do Rio de Janeiro, participando
daquele memorável time campeão carioca de 1960.
Três anos depois já era titular absoluto do Palmeiras
e encantava a torcida com seu estilo clássico. Tinha
o tempo exato da bola e se destacava pela capacidade de antecipação.
E quando dominava-a, fazia questão que ela saísse
limpa de trás.
Este estilo o levou à Seleção Brasileira
em 1965 e, curiosamente, das 16 partidas que participou, ganhou
todas. Mas da seleção canarinha não teve
só boas recordações. Em 1966, foi cortado
às vésperas da Copa da Inglaterra e a história
se repetiu em 1970, na Copa do México. Um ano antes,
tinha sido titular absoluto nas Eliminatórias e a exclusão
de seu nome na campanha do tri continua sem explicação
até hoje. "São águas passadas. O
futebol me deu muito mais alegrias do que tristeza",
resumia, para evitar polêmica.
Em 1968, Djalma Dias saiu brigado do Palmeiras por causa do
pagamento dos 15%, da venda de seu passe para o Atlético
Mineiro. Com o impasse, ficou sem jogar durante vários
meses e a situação só foi contornada
depois que se transferiu para o Santos. E anos depois, Djalma
esclareceu porque comprou o briga com o Palmeiras: "Estava
ancorado em um dos maiores dirigentes de futebol que o Brasil
já teve: Nicolau Moran Vilar, vice-presidente do Santos,
na época. Ele queria me levar para a Vila Belmiro e
pagou-me salários durante todo tempo que fiquei sem
clube", foi a versão do jogador à imprensa.
Djalma encerrou a carreira como jogador profissional no Botafogo
do Rio, em 1974. Lá, formou dupla de zaga com Brito,
num time que contava, entre outros, com os atacantes Roberto
e Jairzinho.
Neste período, Djalma Dias foi dono de uma oficina
mecânica, de uma empresa de importação
de produtos químicos e de uma modesta editora.
O amor pelo futebol não permitiu que se distanciasse
da bola. Depois do Botafogo, foi jogar no Milionário,
equipe de veteranos que fez sucesso na década de 70.
Posteriormente, integrou a seleção brasileira
de master, do radialista Luciano do Vale, ocasião em
que respondia insistentes perguntas sobre os segredos para
conservar 66 quilos, distribuídos em 1,77m de altura.
"Meu termômetro é minha cerveja", contava,
referindo-se à "ceva" geladíssima
obrigatória todos os dias. "Essa é sagrada",
garantia.
Djalma Dias partiu cedo, mas deixou um herdeiro que faz tanto
ou mais sucesso: o meia Djalminha, hoje no América
do México. O zagueiro viveu um dia de grande emoção
em 4 de janeiro de 1987, quando seu filho, ainda juvenil do
Flamengo, o esperava no quarto do hotel depois que a seleção
de master goleou a Itália por 4 a 0. "Pai, você
arrebentou com o jogo", disse espontaneamente o menino,
ao abraçá-lo. E o velho Djalma retrucou: "Se
eu sofresse do coração, teria morrido".
Anos depois, repentinamente, Djalma Dias morreu e na necrópsia
foi acusado aneurisma cerebral.
Ariovaldo Izac
aizac@camisa12.com.br |