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 Ariovaldo Izac
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Reminiscências
 

Bola, bar e morte de Mauro Cabeção

Quem iria admitir que no pacato município de Nova Odessa, que integra a Região Metropolitana de Campinas, no Estado de São Paulo, um doido encapuzado fosse se dirigir em direção ao ex-lateral-direito Mauro Cabeção, 48 anos, no interior de um bar, e efetuasse disparos que lhe tiraram a vida de forma tão estúpida?

Lamentavelmente o fato foi registrado na noite de sexta-feira passada (07/08) e agora restou de Mauro a lembrança de ter sido um dos raros 'atletas da noite' a sobreviver bem no futebol.

Mas quem foi é esse Mauro Cabeção? Para os menos avisados, por três vezes integrou a Seleção Brasileira principal, convocado pelo então treinador Cláudio Coutinho (já falecido), na década de 70. O lateral- direito também participou da seleção de futebol do Brasil nos Jogos Olímpicos de Montreal, no Canadá, em 1976, e teve passagens por Guarani, Santos, Portuguesa de Desportos, Cruzeiro e Grêmio portoalegrense.

E não foi noitada, cachaça, cerveja e mulherada que encurtaram a vida de Mauro no futebol. O cabeçudo queria mesmo era jogar, apesar de vitimado por uma contusão crônica no joelho. E a situação foi se agravando de tal forma que teve de encerrar prematuramente a carreira, que durou pouco mais de 10 anos.

No início, Mauro esbanjava saúde e irresponsabilidade. Freqüentava boates, era assediado pela mulherada, ia cochilar lá pelas tantas da madrugada, mas na manhã seguinte, nem sempre com a pontualidade dos companheiros, lá estava ele trabalhando, como se o sono tivesse sido normal. Era uma vitalidade de fazer inveja.

Evidente que nas vésperas dos jogos, nas concentrações, Mauro descansava bem. No seu tempo tinha de marcar hábeis ponteiros-esquerdos e pode-se dizer que poucos atacantes 'deitaram e rolaram' por ali. Alguns abusados têm cicatrizes de botinadas do lateral viril. O vigor físico permitia que Mauro também atacasse, mas de forma consistente, trabalhando bem a bola com meias que caíam pelo setor. Mauro pegava fácil na bola. Nas raras vezes que chegava ao fundo de campo, o cruzamento saía com efeito e encontrava o atacante de frente.

A rigor, quando o joelho 'baleado' já não permitia que fizesse o vaivém constante, optou pela fixação no miolo de zaga, a exemplo de tantos outros laterais, como Carlos Alberto Torres, Leandro e Djalma Santos. Mauro tinha boa impulsão e foi jogador nos tempos em que laterais tinham de obrigatoriamente cobrir o meio da área. Isso facilitou o deslocamento de posição.

Fora de campo, era só alegria. No começo de carreira ainda tentou evitar o apelido de 'Cabeção', mas certo dia concluiu que, com aquela imensa cabeça, seria impossível sustentar aquela 'briga'.

Mauro travou uma luta titânica para conseguia a aposentadoria. E vivia de mísero salário do INSS (Instituto Nacional de Previdência Social) até que lhe arrumaram um emprego de porteiro no ginásio de esportes do Guarani. De lá, foi transferido para uma escolinha de futebol mantida pelo clube e ensinava a molecada carente a bater na bola.

Á noite, como ninguém é de ferro, também encostava em balcão de bar e não fazia distinção de bebidas, desde que fossem alcoólicas. Assim tocava a vidinha com amigos de sua terra natal, até que na semana passada tudo acabou.

Ariovaldo Izac
aizac@camisa12.com.br

(Ariovaldo Izac escreve esta coluna às Segundas)   

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