Zé Duarte, o 'paizão'
O sexagenário José Duarte parecia erva daninha:
de repente o sumiço, mas logo reaparecia em alto estilo.
Quando o peso da idade não permitia que cumprisse regiamente
as funções de treinador no gramado, sua experiência
ainda era imprescindível como supervisor ou consultor
técnico. Dirigentes da CBF vieram buscá-lo em
Campinas para supervisionar o elenco da Seleção
Brasileira de Futebol Feminino nos Jogos Olímpicos
da Austrália, em 2000, pois havia sido ele o responsável
pelo segundo estágio do futebol para mulheres no País.
No dia 23 de julho, às 17h, em Campinas (SP), foi anunciada
a morte de Zé Duarte, mas fica a história de
um profissional vencedor, que até meados da década
de 60 ganhava a vida trabalhando como encanador e aos domingos
comandava o time amador do Proença, bairro de Campinas.
O jeitão calmo e a sabedoria ao puxar o jogador num
canto para orientá-lo, logo despertaram interesse de
Jaime Silva, ex-presidente do Guarani, que o levou ao Brinco
de Ouro para organizar as categorias menores do clube, visando
copiar o bom exemplo do Fluminense, que garimpava garotos
e os lançavam com sucesso na equipe principal.
Em 1966, Zé do 'Boné' - como também era
identificado - topou o desafio de subir a Avenida dos Esportes
- hoje Avenida Ayrton Senna-, em Campinas, e foi treinar o
juvenil da Ponte Preta. Na ocasião, trabalhou com uma
molecada boa de bola. Seu meia-de-armação era
Dicá. A função de lateral-direito era
desempenhada pelo hoje treinador Nelsinho Baptista, na época
um jogador apenas razoável, mas com passagens por São
Paulo e Santos.
Zé Duarte ganhou reconhecimento da torcida da Ponte
em 1969, com a recondução do clube à
divisão principal do futebol paulista, após
nove anos de fracasso na divisão inferior. Aí,
inesperadamente, decidiu voltar às categorias menores
do Bugre. Como de hábito, realizava um bom trabalho,
mas bastou a queda do técnico Daltro Menezes para que
assumisse o time principal.
Como todo treinador que se preza, Zé Duarte rodou nesse
mundo da bola. Comandou o Cruzeiro. Teve passagem bem sucedida
pelo Bahia. Treinou Inter (RS), Fluminense e dezenas de clubes
brasileiros. O velho Zé, no entanto, parecia predestinado
a fazer sucesso na Ponte. Foi assim em 1977 e 79, quando levou
o time às finais do Paulistão e foi vice-campeão.
O Guarani de 1981/82, de Jorge Mendonça, Careca e Mauro,
contou com a batuta do experiente treinador, que tinha o hábito
de usar chapéu. Foi uma fase áurea do Bugre
e o técnico repetia a expressão 'a verdade é
uma só' ou a palavra 'inclusive', durante as entrevistas.
'Seu' Zé sabia lidar como poucos com jogador (a) manhoso
(a) que encostava no departamento médico, como pretexto
para fugir do trabalho. E quando era tido como acabado para
o mundo da bola, em 1995 'renasceu das cinzas' no comando
da Seleção Brasileira de Futebol Feminino. Pacientemente,
ensinou o bê-á-bá às meninas e
o fruto do trabalho foi o quarto lugar nos Jogos Olímpicos
de Atlanta, de 1996.
Zé foi um vencedor de desafios e deixou um histórico
de conhecedor dos meandros do futebol dentro e fora do campo.
Foi ousado e sobretudo o 'paizão' que sabia muito bem
como lidar com os 'filhos'.
Ariovaldo Izac
aizac@camisa12.com.br |