| Futebol, Paixão ou Profissão?
No próximo dia 29 de junho o Brasil estará comemorando o cinqüentenário da
maior façanha da sua história esportiva - a conquista, pela primeira vez,
da Copa do Mundo de Futebol. Essa competição revelou ao mundo um garoto
que, com apenas 17 anos, se consagraria com o nome de Pelé - o melhor
craque de todos os tempos. A seqüência de títulos tornou a seleção
brasileira (única) pentacampeã mundial, do esporte mais popular do
planeta.
Se dentro das quatro linhas do gramado detemos a supremacia da qualidade
técnica, em termos de planejamento estratégico, organização, gerenciamento
e lucratividade levamos de goleada de vários paises, principalmente dos
milionários clubes europeus. Os investidores internacionais vislumbraram o
efeito multiplicador do fabuloso "PIB futebolístico globalizado"
transformando-o num lucrativo negócio.
Do amor ao clube do coração à irresistível sedução dos euros, o garoto
pobre da periferia já se definiu. Entre a honra de vestir a gloriosa
camisa verde-amarela da seleção brasileira e jogar no exterior ele prefere
driblar a miséria e marcar um golaço no maior adversário da população de
baixa renda - a perversa desigualdade social e econômica.
Garotos, que apesar de não passarem de promessas, afirmam entusiasticamente em
entrevistas que o grande sonho é vestir a jaqueta do Real Madrid, Milan,
Chelsea, Lyon, Barcelona, Bayern de Munique, entre outros. O holandês
Clarence Seedorf, do Milan, que já atuou pelo Real Madrid, Sampdoria e
Inter (Milão), disparou recentemente para a imprensa: "Só o dinheiro manda
no futebol."
Apesar da existência de alguns clubes bem estruturados e de profissionais
brasileiros competentes em gestão esportiva, o nosso maior desafio reside
no baixo desempenho financeiro dos nossos campeonatos. O avanço da
tecnologia, as fantásticas descobertas científicas e a evolução da
medicina provocaram profundas transformações econômicas,
sociais, religiosas e culturais em todos os segmentos. A gestão e a prática
do futebol não foram poupadas. Administrações equivocadas, às vezes
apaixonadas, outras vezes mal intencionadas levaram grande parte dos
clubes a elevadíssimos endividamentos.
O êxodo das nossas gratas revelações para o exterior e estádios sem
condições físicas para oferecer conforto e segurança aos torcedores, são
algumas das causas de rendas menores. O Brasil tem exportado, anualmente,
centenas de jogadores que estão atuando em dezenas de países. A queda de
público e do nível técnico, são evidentes em todas as divisões do nosso
futebol.
Calendário inadequado, que torna alguns clubes inativos por períodos
inaceitáveis, ou que exigem excessos de jogos de outros, punições leves
para faltas graves, erros inadmissíveis de árbitros, violência entre
torcidas, desemprego masculino e até o excesso de jogos semanais, são
fatores que desmotivam o público.
Entre as iniciativas positivas das últimas décadas, destacamos a criação
das chamadas "Escolinhas de Futebol" que têm sido incentivadas por
prefeituras municipais e pela iniciativa privada. O lema é o mesmo: "craque na escola, craque na bola".
A alternativa mais esperançosa para tornar, a médio e longo prazo, o futebol viável aos clubes, encontra-se na
implementação de Centros de Excelência, cuja missão, visão, valores e
políticas objetivam formar homens, para revelar craques.
Nos esportes de alto nível o emocional do atleta faz a diferença. Competência técnica,
conduta ética e habilidade eclética devem fazer parte da qualificação de
jovens aspirantes ao estrelato. Se essa estratégia não for 100% eficaz
para vencer a concorrência com os países ricos, com certeza resultará em
lucro pela descoberta, pelo aprimoramento dos fundamentos do futebol e
pela orientação, sobre como construir (e manter) uma carreira
bem-sucedida.
Concluímos com foco na realidade: o futebol é paixão para torcedores,
profissão para jogadores e gestores e lucro para os investidores.
Faustino Vicente
Advogado, Professor e Consultor de Empresas e de
Órgãos Públicos
faustino.vicente@uol.com.br
30/05/08
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