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O presente de insultos
Com a chegada da Copa do Mundo, a maioria de nossas atenções
se volta para o futebol. Esse esporte tem características
que em certos momentos das partidas faz seus jogadores se
parecerem com estrelas de um grande espetáculo teatral
ou musical. Em outros momentos, porém, lembram palhaços
integrantes de um circo ou guerreiros em uma grande batalha.
Nesse último aspecto, que é o que tem mais
ocorrido ultimamente quando lembramos os jogos mais recentes
pelas eliminatórias ou por Copas anteriores, podemos
ver que os jogadores ficam expostos a situações
de grande tensão, a partida chega a ser encarada como
uma guerra (principalmente quando ocorrem confrontos entre
seleções latinas), os jogadores então
se esquecem do real objetivo da partida e do torneio, passando
a se preocupar somente em atingir o adversário, quase
impedindo a execução do bom futebol.
Pensando nisso e devido ao fato da Copa este ano estar sendo
feita no Japão e na Coréia, lembrei-me de uma
das pérolas da tradição japonesa que
pode servir como inspiração para nossos guerreiros
nessa batalha que está por começar...
Perto do Tóquio vivia urn grande samurai, já
idoso, que se dedicava a ensinar o zen-budisrno aos jovens.
Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz
de derrotar qualquer adversário.
Certa tarde, urn guerreiro conhecido por sua total falta
de escrúpulos apareceu por alí. Era famoso por
utilizar a técnica da provocação. Esperava
que seu adversário fizesse o primeiro movimento e,
dotado de urna inteligência privilegiada para reparar
os erros cometidos, contra-atacava com velocidade fulminante.
O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido urna
luta. Conhecendo a reputação do samurai, estava
alí para derrotá-lo e aumentar sua fama.
Todos os estudantes se manifestaram contra a idéia,
mas o velho mestre aceitou o desafio.
Foram todos para a praça da cidade e o jovem começou
a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direção,
cuspiu em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos ofendendo
inclusive seus ancestrais.
Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho
permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se
já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.
Desapontados pelo fato de que o mestre aceitara tantos insultos
e provocações, os alunos perguntaram:
- Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por quê
não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder
a luta, ao invés
de mostrar-se covarde diante de todos nós?
- Se alguém chega até você com urn presente,
e você näo o aceita, a quem pertence o presente?
- perguntou o samurai.
- A quem tentou entregá-lo! - respondeu urn dos discípulos.
- O mesmo vale pare a inveja, a raiva, e os insultos. - disse
o mestre.
- Quando não são aceitos, continuam pertencendo
a quern os carregava consigo.
Túnico
Desenhista
26/05/02
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